domingo, 18 de maio de 2008

A origem dos cães

Origem dos Canídeos

Os canídeos são mamíferos caracterizados por dentes caninos pontiagudos, uma dentição para um regime onívoro e um esqueleto dimensionado para uma locomoção digitígrada. Pertencem à ordem dos carnívoros, cujo desenvolvimento data do início da era terciária, nos nichos ecológicos abandonados pelos grandes répteis, eles mesmos desaparecidos no final da era secundária. Começaram a evoluir e a se diversificar nessa época, no continente norte-americano, com o aparecimento de uma família de carnívoros parecendo-se com o nosso atual pequeno mustelídeo tipo das lontras: os miacídeos. Essa família prosperava no continente há 40 milhões de anos e abrangia 42 gêneros diferentes, enquanto só conta com 16 em nossos dias. A família dos canídeos atuais abrange três subfamílias: os cuonídeos (licaon), os otocinonídeos (otocion) da África do sul e os canídeos (cão, lobo, raposa, chacal, coiote).

Evolução dos Canídeos

Os canídeos substituíram progressivamente os miacídeos com o aparecimento do gênero hesperocion, muito difundido há cerca de 35 milhões de anos, O seu crânio e seus dedos já apresentavam analogias ósseas e dentárias como às dos lobos, dos cães e das raposas atuais para poderem se apresentar na orgem dessas linhagens.

O mioceno vê o aparecimento do gênero flacion que devia parecer-se a um rato lavador mas, principalmente, do gênero Mesocion cuja arcada dentária era compatível à do nosso cão atual. O perfil dos canídeos evolui, então, progressivamente com os gêneros Cynodesmus (parecendo-se ao coiote), em seguida Tomarctus e Leptocyon para aproximar-se cada vez mais do nosso lobo atual ou mesmo do cão tipo Spitz, graças à redução e enrolamento do rabo, o alongamento dos membros e de suas extremidades notadamente com a redução do dedo chamado polegar que traduzem uma adaptação para a corrida.

Aparecimento do Gênero Canis

Os canídeos do gênero Canis só aparecem no final da era terciária para ganhar a Europa no eoceno superior pelo estreito de Bering daquela época, mas de onde parecem desaparecer no oligoceno inferior sendo substituídos pelos ursídeos. O mioceno superior os vê voltar com a imigração, sempre com procedência da América do Norte, de Canis lepophagus, que já era parecido ao cão atual, se bem que seu tamanho seja mais próximo ao do coiote.

Esses canídeos migram então, progressivamente para a Ásia e para a África, no plioceno. Paradoxalmente, parecem só ter conquistado a América do Sul, mais tarde, no pleistoceno inferior. Enfim, é realmente o homen que está na origem de sua introdução no continente australiano, há cerca de 500.000 anos, no pleistoceno superior, mas nada prova que ele esteja na origem dos dingos, esses cães selvagens que povoam atualmente esse continente e que foram, há somente de 15.000 a 20.000 anos, importados pelo homen.

O Ancestral do Lobo, do Chacal e do Coiote

Canis etruscus, datando de cerca de 1 a 2 milhões de anos e atualmente considerado, apesar do seu pequeno tamanho, como o ancestral do lobo na Europa, enquanto Canis Cypio, que habilitava na região dos Pirineus há cerca de 8 milhões de anos, parece ter sido a origem do chacal e coiote atuais.

Sobre a Importância dos Sítios Arqueológicos da Europa e da China

Distiguimos nos sítios arqueológicos da Europa vários tipos de cães: os maiores teriam se originado dos grandes lobos do Norte (tinham o tamanho, na cernelha, dos atuais Dogues alemães) e teriam dado origem aos cães nórdicos e aos grandes cães pastores. Os menores, morfologicamente perto dos dingos selvagens atuais, achariam suas origens nos lobos menores da Índia ou do Oriente Próximo.

O cão tem a sua Origem no Lobo?

Os mais antigos esqueletos de cães descobertos datam de cerca de 30.000 anos depois do aparecimento do homen de Cro-Magno (Homo sapiens sapiens). Eles sempre foram exumados em associação com o resto das ossadas humanas e é razão pela qual mereceram, em seguida, a denominação de Canis familiaris (-10.000 anos).

Parece lógico pensar que o cão doméstico descende de um canídio selvagem pré-existente. Entre ascendentes em potencial figuram o lobo (Canis lupus), o chacal (Canis aurus) e o coiote (Canis patrans).

Por outro lado, é na China que os antigos vestígios dos cães foram descobertos, enquanto que, nem o chacal, nem o coiote foram identificados nestas regiões. Na China também foram encontradas as primeiras associações entre o homem e uma variedade de lobos de tamanho pequeno (Canis lupus variabilis) que remonta a 150.000 anos. A coexistência dessas duas espécies, num estágio precoce de sua evolução, parece confirmar a teoria do lobo como ancestral do cão.

Essa hipótese foi reforçada recentemente por várias descobertas, notadamente: o aparecimento de certas raças de cães nórdicos diretamente originados do lobo; o resultado de trabalhos genéticos comparando o DNA mitocondrial destas espécies, revelando uma semelhança superior a 99,8% entre o cão e o lobo enquanto ela não ultrapassa 96% entre o cão e o coiote; e existência de mais de 45 subespécies de lobos que poderiam estar na origem da diversidade racial observada nos cães; a semelhança e compreensão recíproca da linguagem de postura e da linguagem vocal entre essas duas espécies.

Semelhança entre o Cão e o Lobo: uma análise difícil

Estas semelhanças entre cães e lobos complicam o trabalho dos arqueólogos para fazer uma distinção precisa entre os vestígios do lobo e do cão quando estes são incompletos ou quando o contexto arqueológico torna a coabitação pouco provável. Com efeito, o cão primitivo só se diferencia do seu ancestral por alguns detalhes pouco fiáveis, como o comprimento do focinho, a angulação do stop ou ainda à distância entre os molares cortantes e os tubéculos superiores.

O número de canídeos predadores certamente foi muito inferior ao de suas presas, o que vem a diminuir as chances de se descobrir os seus fósseis. Todas essas dificuldades, às quais se juntaram as possibilidades de hibridação cão-lobo, permitem entender porque os numerosos elos sobre as origens do cão restam a serem descobertos e, notadamente, as formas de transição entre Canis lupus variabilis e Canis familiaris que talvez permitirão, algum dia, encontrar uma resposta entre as diferentes teorias.

Observemos, no entanto, que toda teoria "de difusão" que atribui às migrações humanas as responsabilidades de adaptações do cão primitivo, exclui a teoria "evolucionista" que sustenta que as variedades de cães provem de diferentes centro de domesticação do lobo.

A Domesticação do Lobo

A descoberta de pegadas e ossadas de lobo nos territórios ocupados pelo homem na Europa remonta a 40.000 anos, se bem que, sua real utilização não esteja ainda autenticada pelo Homo sapiens nos afrescos pré-históricos.

Nesta época, o homem ainda não era sedentário e se alimentava de produtos de sua caça cujas migrações ele seguia. As mudanças climáticas — final de um período glacial e aquecimento brutal da atmosfera que ocorreram há cerca de 10.000 anos na passagem do pleistoceno para o holoceno, conduziram a substituição das tundras pelas florestas e, como resultado, á diminuição dos mamutes e dos bisões em substituição pelos cervos e javalis. Essa diminuição da caça tradicional impulsionou o homem a inventar armas novas e a adaptar suas técnicas de caça. Estavam então concorrendo com os lobos que se alimentavam da mesma caça e utilizavam as mesmas técnicas de caça em matilha, laçando mão de "abatedores".

O homem teve que, então, naturalmente, tornar o lobo o seu aliado para a caça, procurando, pela primeira vez, domesticar um animal antes de torná-lo sedentário por si próprio e cuidar do seu gado. Assim, o cão primitivo era, indiscutivelmente, um cão de caça e não um cão pastor.

Da Familiarização do Lobo à Sua Domesticação

A domesticação do lobo acompanha a passagem do homem do período de "predação" ao período de "produção". Ela certamente começou pela familiarização de alguns indivíduos. Mesmo se esse trabalho de familiarização deve ser retomado na base por ocasião da morte de cada indivíduo, ele constitui a primeira etapa indispensável para conduzir à domesticação de uma espécie, incluindo uma segunda etapa: o domínio de sua reprodução.

A domesticação do lobo começou sem dúvida no oriente, mas não se realizou num único lugar, nem do dia para a noite, se referimos aos numerosos centros de domesticação descobertos nos sítios arqueológicos.

Várias tentativas tiveram de ser conduzidas em diferentes pontos do globo sobre jovens lobos originados de vários grupos e levados a uma impregnação irreversível ao homem, durante seu período neonatal, em seguida à rejeição dos seus congêneres, que caracterizam a domesticação. Esse sucesso foi sem dúvida favorecido pela aptidão natural dos jovens lobos a se submeterem às regras hierarquizadas de uma matilha. Mesmo se algumas fêmeas, quando se tornaram adultas, puderam, de vez em quando, ser fecundadas por lobos selvagens, os produtos desses acasalamentos, criados na proximidade do homem, também foram sujeitos a esta impregnação interespecífica, limitando as possibilidades de voltar ao estado selvagem.

Do Lobo ao Cão

Como em toda domesticação, o processo de familiarização do lobo se fez acompanhar de várias modificações morfológicas e comportamentais em função de nossa própria evolução. Assim, as mudanças observadas nos esqueletos demonstram um tipo de regressão juvenil denominada "pedomorfose", como se os animais, quando se tornavam adultos, tivessem guardado com o passar das gerações, características e certos componentes imaturos: redução do tamanho, diminuição da cana nasal, pronunciamento do stop, latidos, gemidos, atitudes lúdicas... que fazem certos arqueozoólogos afirmarem que o cão é um animal que permaneceu no estágio de adolescência, cuja sobrevivência depende estritamente do homem.

Paradoxalmente, este fenômeno é acompanhado de uma redução do período de crescimento, levando a um avanço do período de puberdade e permitindo, assim, um acesso à reprodução mais precoce, que explica porque, nos dias de hoje, a puberdade é mais precoce nas raças de cães de pequeno porte do que nas raças de grandes, em todos os casos mais precoces do que nos lobos (cerca de dois anos). Paralelamente a dentição adapta-se a um regime mais onívoro do que carnívoro, pois os cães domésticos "contentavam-se" com os restos alimentares dos homens sem ter que caçar para sua subsistência.

Este tipo de "degenerescência" que acompanha a domesticação encontra-se igualmente na maioria das espécies como na espécie porcina (encurtamento do focinho) ou mesmo nas raposas de criação que podem adotar, em apenas cerca de vinte gerações, um comportamento similar aos dos cães de pequeno porte. A relação doméstica, então parece ir de encontro à evolução natural — a menos que se considere o homem como uma parte integrante da natureza para aparentar-se a uma técnica de seleção.

Os Resultados da Seleção pelo Homem

Embora se encontre a descrição de "galgos" na paleontologia egípcia ou de "molossos" na história assíria, este eram apenas, na realidade, subespécies de Canis familiaris, variedades ou tipos de clãs, o aparecimento de raças caninas tais como as que conhecemos hoje em dia é um fenômeno bem mais recente do que a domesticação, porque ela data desde a Antiguidade.

Fora algumas raças caninas, como o Bichon maltês, cuja identificação racial pôde ser mantida num território limitado, a maioria das raças de cães são produtos da seleção exercida pelas nossas civilizações, da ação permitida pela domesticação e da orientação dos acasalamentos.

http://www.firstsunsetkennel.hpg.ig.com.br/artigos_arquivos/cao_origens.htm